Dicas

Casamento Americano

Em Setembro de 2014, tivemos a honra de trabalhar no noivado de Lary e Chris aqui no Brasil. Logo em Dezembro, os dois realizaram a cerimônia de casamento em Baltimore, nos EUA. E por sua experiência ímpar, convidamos a Lary para contar um pouco dos preparativos do casamento americano e suas diferenças para o que temos no Brasil. Confira:

"Antes de ir ao ponto e comparar a preparação do grande dia no Brasil e nos EUA, acho válido contar rapidamente um pouco da minha história com o Chris. Eu sempre usei a internet para aprender/treinar idiomas, fiz muitos amigos e amigas assim. O Chris, a princípio, era mais um deles. No entanto, diferente dessas outras amizades, nossas conversas se tornaram cada vez mais constantes e interessantes e, ao final delas, um sentimento diferente. Algo do tipo: "pena que estamos tão distantes". Até que em uma viagem a trabalho para os Estados Unidos, resolvi fazer um desvio de trajeto e ir conhecê-lo, me sentia segura e confiante de que era a coisa certa a fazer. Muitos consideraram uma loucura, inclusive eu. Mas, até então eu vivia minha vida sempre tão certinha, sem muitos riscos, achei que era tempo para algo do tipo. E fiz. Três anos depois, estamos aqui, casados. Desde aquela viagem não nos separamos, foram muitas idas e vindas entre o Brasil e os Estados Unidos e a cada despedida a certeza que o dia de ficar junto pra valer ia chegar.

Com a decisão de que eu me mudaria para os EUA, aplicamos para um tipo de visto que exigia que nosso casamento acontecesse nos Estados Unidos exclusivamente, e não no Brasil. Impedida por conta de burocracia de realizar a cerimônia de casamento no Brasil, decidi que a festa não passaria em branco. No entanto, para evitar problemas com a imigração americana chamamos de festa de noivado, contudo, tirando o fato de que eu não estava vestida de noiva e que não havíamos acabado de chegar da igreja, a festa foi uma festa de casamento.

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Pude perceber algumas diferenças gritantes entre a preparação da festa no Brasil e nos EUA. A indústria do casamento no Brasil me parece muito mais forte e organizada, nos EUA ainda prevalece muito o "faça você mesmo". Não sei se esta prática está relacionada com a crise econômica em 2008 que afetou muito o jeito do americano gastar dinheiro, mas certamente se compararmos duas famílias com o mesmo poder aquisitivo nos dois países, a brasileira gastará muito mais com a festa. 

A primeira grande diferença é a maneira de convidar. Os convites são todos enviados pelos correios e dentro do envelope se envia um envelope menor com o selo e endereço de retorno já preparados e dentro o cartão de RSVP. E a regra é claríssima, se não responder até o dia determinado no cartão, simplesmente está fora da festa. Acredito que a formalidade que é dada ao processo de convidar aqui nos EUA, evita bastante que pessoas confirmem e deixem de ir. Nos EUA, de 44 convidados, tivemos apenas uma pessoa que confirmou e não pode ir pois ela havia quebrado o pé no dia anterior. Já no Brasil, me deparei com 9 pessoas que confirmaram presença e não foram, o que é lamentável. Um outro aspecto que achei interessante, é como aqui está completamente superado todo o problema que um casal no Brasil pode enfrentar se decidirem que crianças não são bem-vindas na festa. Aqui na verdade é o contrário, o comum é não convidar criança, pois entende-se que uma festa com bebidas, adultos, coisas que quebram e outros, não é um local apropriado para os pequenos.

No Brasil, acompanhando blogs, sites, grupos de noivas no Facebook, vejo que a cada dia surgem novas tendências e detalhes para se preocupar, empresas oferecendo personalização de tudo quanto é coisa. Aqui nos EUA, com exceção dos casamentos hollywoodianos, a maioria das noivas dormem e acordam de frente para o Pinterest em busca de dicas DIY (do it yourself - faça você mesmo) para acrescentar em suas festas.

O maior impacto que eu tive foi em relação a decoração, que após a comida foi o item mais caro na minha festa no Brasil. Já aqui, tentei encontrar empresas que fizessem apenas decoração e não achei. Além disso, já que nos EUA não se tem a tradição da mesa de bolo e de doces, a festa não possui um ponto focal para ser decorado a não ser a mesa dos convidados, que por sua vez é responsabilidade da empresa contratada para o buffet. Me lembro que no primeiro cerimonial que visitei com minha sogra, uma mansão antiga lindíssima, a senhora apresentando o local apontou para um canto escondido atrás de uma porta como sugestão de lugar onde eu poderia colocar o bolo. Para minha decoração aqui, não precisei me preocupar com muita coisa pois o local era bonito por si só, e estava todo decorado para o Natal. Preparei apenas, com a ajuda da minha sogra, os centros de mesa, a decoração da mesa onde ficaram alguns porta-retratos e o livro de assinaturas, e montamos os pratos para colocar os doces.

Em relação ao local da festa, meu casamento aconteceu em um castelo chamado The Maryvale Castle, que pertence a uma escola católica da região. O castelo funciona durante a semana como a biblioteca da escola e eles alugam para festas nos finais de semana. Eles criaram um sistema em que as prateleiras com os livros são todas colocadas contra a parede criando um ambiente livre no meio para as mesas de convidados. O local era líndissimo, com jardins, escadarias e muitas opções para fotos. No meu caso, como nosso casamento aqui foi para poucas pessoas, decidimos usar a capela do castelo para a cerimônia. Na busca por locais para o casamento, pude notar mais uma diferença em relação à minha busca na Grande Vitória. Com exceção de alguns clubes e hotéis, a maioria dos locais que visitei eram mansões antigas ou locais históricos, encontrei apenas um local que tenha sido construído especificamente para festas.

Outro aspecto importante, é que apenas famílias muito ricas contratam uma cerimonialista. Aqui, quem organiza a festa é a noiva, a mãe da noiva ou uma amiga, e a responsável pelo buffet. No meu casamento, a gerente do buffet organizou a linha do tempo com a sequência de eventos durante cerimônia e recepção, a entrada de todos durante a cerimônia, entre outros. O casamento nos EUA possui vários momentos distintos, e um só pode correr após o outro segundo a tradição. O momento mais esperado é o discurso do Best Man e da Maid of Honor. Esta senhora ficou checando o tempo inteiro se tudo estava correndo dentro do planejado.

Comida é um outro item bem diferente. Enquanto no Brasil normalmente são servidas diversas opções de petiscos e mini-foods, e em alguns casos um prato quente. Aqui a estrutura é bem mais rígida. Tivemos uma hora de coquetel, com apenas cinco petiscos sendo servidos, enquanto na festa no Brasil eram mais de 30. Após o coquetel, os convidados sentam em suas mesas pré-determinadas (na entrada da festa tem um ticket com o nome do convidado e o número da mesa que ele deve sentar), serve-se a salada, a entrada principal e a sobremesa. Em relação a planejar onde cada convidado deve sentar, quando explicava para as pessoas que normalmente não fazemos isso no Brasil, as pessoas riam ou achavam a ideia um tanto absurda e bagunçada. Quanto ao preço da comida, pagamos cerca de 107 dólares por pessoa (bebidas inclusas), enquanto no Brasil, pagamos 78 reais por pessoa (bebida à parte). De qualquer forma, a diferença de preço é enorme. Comida nos EUA é muito caro, sobretudo se considerarmos que no Brasil são servidas mais opções.

Outro item com preços exorbitantes: flores. Por conta, das quatro estações definidas, quem casa no inverno por aqui, como eu fiz, deve se preparar para o preço das flores. Elas precisam ser importadas de regiões mais quentes e custam uma fortuna. Os dois arranjos da mesa de bolo aqui nos EUA foram elogiados e considerados lindíssimos pelos convidados daqui. No Brasil, teria sido considerado pobre, cheio de verde, sem flor e feioso. Se eu tivesse tido mais tempo, teria feito meus próprios arranjos com flores artificiais. Eu sei que soa terrível para quem planeja um casamento no Brasil, mas com o inverno, e a falta de flores, certamente eu teria comprado plantas artificiais de qualidade, e feito arranjos mais bonitos. Bom, em compensação, meu bouquet estava muito bonito, já que pelo menos as orquídeas gostam do frio.
No casamento americano, tentei trazer alguns elementos da nossa tradição. De forma alguma iria ter uma festa de casamento com o bolo escondido ou sem doces. Falando de bolo, os bolos aqui são muito pesados, eles são aversos a ideia de maquete, muitas pessoas descreveram pra mim como "tacky" ou seja, brega. Minha sogra teria tido um ataque se eu usasse maquete. Para não começar na família com o pé esquerdo, aceitei fazer o bolo na padaria de um supermercado bem tradicional na cidade. Eu particularmente não gostei, a massa do bolo era pesada para que conseguisse ficar em pé e eles usam para o recheio a mesma massa que usam para cobrir o bolo, muito sem graça. E este foi o bolo mais gostoso de todos os que provamos. Mais do que nunca sou fã da maquete e poder comer bolos com recheios bem gostosos, com pedaços de verdade de nozes, avelãs, cerejas ou o que você quiser escolher. No meu caso, no Brasil, servi bolo de sorvete.

Em relação aos doces, eu tive que encontrar uma maneira de torná-los tão importantes na festa daqui quanto no Brasil. A inovação começou pelas forminhas que aqui não é comum. Escolhi as cores da festa bem antes da minha mudança para os EUA, pois no Brasil tenho uma tia que faz formas de doces para casamento. Com ajuda dela e da minha irmã produzimos aproximadamente duas mil formas no total para as duas festas. No Brasil, quem fez meus doces foi a Dona Ivone de Domingos Martins, simplesmente deliciosos, tenho ciência que podem não ser os doces mais elaborados e bonitos da Grande Vitória, mas foi de longe os que eu mais gostei de degustar. Nos EUA, os doces foram feitos com a ajuda das minhas bridesmaids, minha mãe e minha irmã que sabe tudo de cozinha (ela é nutricionista e gastrônoma). Como as pessoas daqui não conhecem a tradição dos doces, personalizei caixas e na festa criamos um display que dizia algo do tipo "pegue uma caixa e encha com seus sabores de doces preferidos". Foi um sucesso, os 600 doces evaporarem em poucos minutos igual acontece nas festas brasileiras. Os elogios foram incríveis, várias pessoas vieram até mim dizendo que eu deveria abrir um negócio (risos). E muitas pessoas guardaram as forminhas, boquiabertos com tanto trabalho e cuidado.

Como muitos sabem, aqui nos EUA não se escolhe padrinhos e madrinhas. Normalmente, a noiva escolha suas amigas (caso o noivo tenha irmãs, é de bom tom convidá-las também) que são chamadas bridesmaids, dentre elas, a noiva escolhe uma para ser a maid of honor ou dama de honra, que normalmente é sua amiga mais próxima ou aquela que a noiva acha mais adequada para fazer o discurso. O mesmo vale para o noivo, porém os nomes são groomsmen e no caso do amigo mais próximo que fará o discurso, o best man. Existem uma série de funções que a maid of honor e o best man precisam executar, por exemplo, a maid of honor normalmente deve ser responsável em organizar o chá de panela e o best man a despedida de solteiro. No meu caso, como minha maid of honor era brasileira e chegou aqui nos EUA apenas poucos dias antes do meu casamento, não seguimos a tradição tão à risca. Um outro ponto importante é que não há necessidade de se ter um número igual de bridesmaids e groomsmen.

Tentei ao máximo balancear os elementos da nossa cultura com a cultura do meu noivo. Acredito que tenha conseguido cumprir a missão. Nosso casamento foi na verdade um mini-wedding tendo em vista que nem todos os meus familiares do Brasil puderam vir e a família do meu noivo é muito pequena. Foi uma excelente ideia ter feito a festa de noivado no Brasil para os meus familiares e poder ter contado com a presença de parte da família do meu noivo, pois deste modo eles puderam conhecer um pouco das tradições brasileiras. E com o nosso casamento aqui, pude apresentar um pouco para quem veio do Brasil as tradições do lado de cá. Minha conclusão é que apesar das muitas diferenças culturais, tem-se uma coisa em comum latente: duas famílias diferentes que se unem e querem o melhor para seus filhos no grande dia da vida deles."

Confira abaixo algumas fotos do noivado no Brasil e do casamento nos EUA da Lary e do Chris (Fotos: Schmitz Fotografia)

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